Essa é a parte da história da vida dos meninos que eles não protagonizam, a parte que vocês tentam me entender, me conhecer, saber minha participação nessa história de amor. Hoje não contarei nada sobre mim diretamente, preciso desabafar algo que venho guardando a muito tempo no fundo de minha mente, algo recentemente redescoberto, desperto por emoções indistintas vindas de um filme.
Eu costumava dizer que não escrevia pra ninguém, por ninguém, apenas escrevia. Sendo confusa, sem muita aprovação familiar, visitando extremos, de filha perfeita para a filha emocionalmente descontrolada.
Sim, posso estar confusa, não encontrar a aprovação que busco, meu coração acelera só de pensar que nossos olhares possam se cruzar. Venho vivendo esse drama eterno da "garota sem mãe", injustiçada, mártir, talvez inconsequente por consequência da falta de mãe, ou quem sabe irresponsável? Já ouvi que preciso preencher meu tempo, que possuo um vazio, um precipício emocional quem sabe? Nos assumir? Me assumir? Não foi difícil, apenas mais um rótulo pra minha coleção... Nerd, inquieta, fala de mais, sempre se relaciona com as pessoas erradas, com os sofredores, ama causas sociais, não cuida nunca da própria vida, indecisa, confusa, sem mãe, só anda com gays, só lê, bissexual, lésbica e fumante? O que são rótulos? Olhe ao redor, tudo tem rótulos, antes mesmo de você pensar já dizem se você é menino ou menina, te dão um nome que você não tem o direito de escolher, não me importo com o que acham que sou, na verdade, me importo sim, sou tudo que você pode enxergar. Apesar de tudo, construí um mundo particular, um mundo onde não há vazios ou espaços para preencher, mas, continuo ouvindo que preciso de ajuda, e talvez eu precise, mas quem não precisa?
Talvez ela nem saiba, ou depois de tanto tempo saiba, saiba que preencheu algo que não sabia existir, deixei que penetrasse algo que nem eu mesma sabia existir, só de lembrar, meu corpo vibra, reage, se inquieta e se aquieta, ofega...
Ao mesmo tempo que fico entregue, pareço emergir de um transe profundo, como se minha mente tivesse sido pausada, como se eu fosse apenas um filme que alguém pausou para ir ao banheiro rapidinho. Espero que demore. Que essa pausa seja eterna, quase não parece real.
A desajustada, nerd, confusa, perdida, viajante de um quarto só, finalmente sentiu algo real. Eu poderia apagar o passado e viver apenas a partir desse dia... Fazer amor? Não imaginei jamais que fosse possível, sequer viável e que esse desejo, esse desejo de infinito fosse verdadeiro.
Ainda não sou capaz de acreditar que o amor exista, mesmo com todos esses sentimentos perambulando pelos caminhos mais insanos do meu cérebro ainda me mantenho pessimista.
Talvez ele, o amor, possa ser feito, produzido, talvez até eternizado, talvez devêssemos substituir a palavra amor por momentos, são momentos, compartilhados ou não que nos tiram o fôlego, apenas.
SEXO? AMOR?
PRAZER? GOZO?
ETERNIDADE?
Todos os rótulos que me deram, assumi-os, vivi-os, não me perdi de nenhum, e agora? Estou entregue a cumplicidade, intimidade de outra pessoa, livre.
Quase não escuto meu amigo contar suas peripécias sexuais, quase não escuto meus professores, minhas horas se arrastam até você, Houve dias em que me senti andando com uma parte de mim que eu jamais conhecera antes mas que sempre espreitou-me, vivendo nas sombras de minha mente, esperando. Não como se completassem, mas como se fossem parte de algo maior, que mesmo sendo peças de quebra-cabeças completamente distintos achassem uma forma torta de se encaixar.
