terça-feira, 31 de março de 2015

Part. Cinco

-Senhor dos Anéis é melhor que Harry Potter! - afirma ele. deixo o espanto dominar minhas feições como sempre acontece quando alguém ofende a Deusa suprema. abro um sorriso debochado. - desculpe, não posso concordar, são estilos de escrita totalmente diferentes, um não pode sobrepujar o outro.
-sobrepujar? - ele me beija. - estou "abasbacado" com o refinamento de seu vocabulário.
-não superei você ainda. - rimos e nos beijamos.
eu não queria dormir, queria ficar para sempre deitado ao lado dele, olhando o teto, segurando sua mão e rindo dos assuntos aleatórios que iam surgindo durante a madrugada. no entanto, a realidade iria nos esbofetear mais cedo ou mais tarde. e eu nunca estive tão certo disso.
-como vai ser agora Pedro? - ele me lança um olhar penetrante.
-vou contar pros meus pais Léo, não vou esconder o que sinto por você, não posso. seria injusto com você e comigo também.
-você não quer esperar mais um pouco?
-só se você quiser. mas estou tão certo do que sinto por você que não ligo pro resto. e o mundo pra mim é o resto e se você ficar comigo enfrento todo esse resto se for necessário. sei que vai ser difícil, principalmente pra mim, pois você já se acostumou com as brincadeiras estúpidas e as risadas, mas eu não ligo. sei que no fim do dia você vai estar lá.
-tudo isso é lindo Pedro, mas não é tão simples. nunca vai ser simples.
-o que você sugere então?

Pedro.

As coisas andavam muito confusas na minha mente, todos os dias eu acordava muito perturbado, mas quando o via, não tinha como não sorrir, ele estava sempre de bom humor, não sei se ele era daquele jeito ou apenas eu que estava sempre triste de mais, confuso de mais. Eu o amava, ele me amava mas ele não tinha ideia do que eu escondia e de quem eu realmente era, se ele soubesse talvez não me amasse tanto, assim como a Mel me deixou ele também me deixaria.
Em uma aula a professora perguntou qual era a primeira coisa que víamos quando acordávamos e como nos sentíamos ao pensar sobre essa coisa, pediu que escrevêssemos. Eu escrevi. Escrevi que era a mensagem de bom dia que a pessoa mais especial da minha vida me enviava todas as manhãs, e também a espera por essa mensagem quando eu acordava primeiro, até mesmo quando eu mandava "Bom dia" primeiro, disse que isso fazia com que eu me sentisse especial, amado, e que em dias ruins eu me prendia a essa pequena mensagem e ela me modificava. A professora respondeu meu texto, e foi uma resposta "acertada": "Os seus pólos negativos são alterados por essa pessoa, os transformando assim em positivos, fazendo com que todo o seu ser pareça e esteja mais feliz."
Pensei nisso durante todos os dias daquela semana, para resistir a tentação de beijá-lo todas as vezes que estávamos juntos na escola, como se fosse possível esquecer a noite que ficamos juntos, sentia falta de momentos como aquele, sentia falta de me sentir eu mesmo. E isso, só acontecia quando eu estava com ele, ali naquele mundo que criamos éramos únicos... éramos insensatos... livres... infinitos.

Flávia.

Recebi uma ligação.
Atendi.
Falei.
Ele falou.
Falei.
Ele falou.
Desligamos.

Todos os dias quando eu saia para a faculdade e via pela janela do carro do meu pai a imensidão e complexidade do mundo, pensava que eu não podia ser a única pessoa que pensava assim, que deveriam existir mais loucos do que sãos no mundo, e que eu apenas não os havia encontrado ainda.
"Sempre sonhadora" era o que meu pai me dizia, mas ele também dizia que se alguém fosse capaz de transformar sonhos em realidade esse alguém seria eu.
Eu acreditava nele. Ou pensava acreditar.

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